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Modelos de remuneração na saúde, o fim do reinado do fee-for-service já começou

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B2E Saúde
3 de ago.
8 min de leitura

Por Elaine Costa, sócia-fundadora e consultora sênior da B2E Saúde


Gestão estratégica em saúde · Leitura do setor


Passei quase três décadas dentro da gestão de hospitais e de empresas de saúde, e poucas transformações me parecem tão silenciosas, e ao mesmo tempo tão profundas, quanto a que está em curso nos modelos de remuneração na saúde. É uma mudança que quase não aparece nas manchetes, mas que vai redefinir quem consegue operar de forma sustentável na próxima década.


Durante muito tempo, a lógica foi simples e quase inquestionável. Cada procedimento realizado gerava um pagamento. Mais exames, mais consultas, mais cirurgias, mais faturamento. Esse é o modelo que ficou conhecido como fee-for-service, e ele reinou praticamente sozinho por décadas.


Só que os números do setor mostram que esse reinado está chegando ao fim. O Observatório ANAHP 2026 aponta que 69,35% dos hospitais associados já operam com modelos que vão além do fee-for-service tradicional. Ou seja, sete em cada dez hospitais de referência do país já mudaram, pelo menos em parte, a forma como cobram.


Até agora, essa conversa tem ficado concentrada entre grandes hospitais e operadoras. Mas eu tenho poucas dúvidas de que ela vai chegar às clínicas, aos consultórios e aos hospitais menores. E quem entender o movimento antes vai ter uma vantagem importante.




Como o fee-for-service reinou por tanto tempo (e por que ele começou a incomodar)


O fee-for-service, ou pagamento por serviço prestado, é aquele modelo em que se cobra por unidade de produção. Cada consulta, cada exame, cada procedimento tem um valor, e a soma de tudo isso vira a receita da operação.


É um modelo intuitivo. Fácil de entender, fácil de faturar, fácil de auditar. Por isso ele se consolidou como o padrão da saúde suplementar brasileira e organizou a forma como praticamente todo mundo aprendeu a pensar receita.


O incentivo que ele cria, porém, tem um problema estrutural. Quando se paga por volume, o sistema recompensa quem faz mais, não necessariamente quem resolve melhor. Um paciente que retorna três vezes gera mais receita do que um paciente que foi bem cuidado e resolveu na primeira consulta. Na conta do fee-for-service puro, a repetição pode valer mais do que o desfecho. Foi essa distorção, somada à pressão de custos que o setor inteiro vem sentindo, que abriu espaço para outros modelos.


O que os dados mostram: o setor já virou a chave 


Os números do Observatório ANAHP 2026 são claros nesse ponto. Além dos 69,35% que já operam com modelos alternativos, 45,16% dos hospitais trabalham com diárias, pacotes e bundles. Modelos como pagamento por performance, capitation e DRG também aparecem com peso crescente na forma como o setor organiza sua remuneração.


E o movimento não é isolado. A própria Carta da Anahp, que abre a edição de 25 anos do Observatório, defende abertamente a remuneração baseada em valor como um dos caminhos para a sustentabilidade do setor. A discussão saiu do campo teórico e entrou na agenda estratégica das instituições.


A mentalidade também mudou. Quando o Sírio-Libanês cria um Escritório de Valor em Saúde, que conecta resultado clínico, experiência e custo, e reporta 15 milhões de reais em custo evitado em doze meses, o recado fica evidente. Como resumiu um executivo do setor, sucesso na saúde não é volume. Se as instituições mais estruturadas do país estão migrando para essa lógica, é questão de tempo até que ela redesenhe a régua para todos os portes.



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Um glossário sem jargão: os modelos que estão entrando no lugar


Quando o assunto é remuneração, o setor adora sigla. Vou traduzir os principais modelos de forma direta, porque entender o vocabulário é o primeiro passo para não ficar de fora da conversa.


Pacotes e bundles. Em vez de cobrar cada item separadamente, define-se um valor fechado para um episódio completo de cuidado. Uma cirurgia, por exemplo, com honorários, materiais, diária e taxas reunidos em um único preço. O prestador assume o compromisso de entregar aquele desfecho dentro daquele valor.


Diárias. Um valor fixo por dia de internação, que cobre um conjunto de itens em vez do faturamento item a item. Simplifica a conta e desloca parte do risco para quem presta o cuidado.


Capitation. Aqui a lógica muda mais profundamente. Paga-se um valor fixo por pessoa, por período, para cuidar de uma população, independentemente de quanto ela utiliza os serviços. Quem cuida bem e previne agravos tende a ganhar. Quem apenas reage ao adoecimento tende a perder.


DRG. A sigla vem de Diagnosis Related Groups, ou grupos de diagnósticos relacionados. O pagamento é definido pela categoria de diagnóstico do paciente e pelos recursos esperados para tratá-lo, e não pela quantidade de itens consumidos. Pacientes com perfis parecidos são remunerados por uma lógica de valor parecida.


Pagamento por performance e remuneração baseada em valor. São os modelos que amarram parte do pagamento a resultado, qualidade e desfecho. Cuidar bem passa a ter recompensa direta. Por trás de todos eles existe um mesmo princípio: pagar pelo valor gerado, e não pela quantidade de coisas feitas.



Por que isso importa para clínicas e hospitais menores


Talvez você esteja pensando que isso é assunto de grande hospital, e que a sua clínica ou o seu consultório está distante dessa realidade. Entendo o raciocínio, mas discordo dele por três motivos.


O primeiro é que quem abre ou reestrutura um negócio de saúde hoje pensando apenas em volume está desenhando para um modelo que já está em retirada. É como construir uma casa inteira voltada para uma rua que vai virar mão única.


O segundo é que a pressão vem de cima para baixo. As operadoras estão mais verticalizadas, mais orientadas por dados e mais duras na negociação de custo, e a relação entre prestadores e fontes pagadoras está cada vez mais tensionada. Quando esses modelos amadurecem nos grandes contratos, eles descem para os contratos menores. A clínica que nunca olhou para o tema negocia em desvantagem.


O terceiro é que essa mudança premia justamente o tipo de gestão que costuma faltar nos negócios menores: conhecer o próprio custo, medir desfecho, padronizar processo e ter previsibilidade. Quem já opera assim larga na frente. Quem não opera ainda tem tempo de se preparar, desde que comece agora.


Por onde uma clínica começa a se preparar


Preparar uma operação para a lógica de valor não exige virar tudo de cabeça para baixo da noite para o dia. Exige começar a olhar para alguns pontos que, no modelo antigo, ficavam em segundo plano.


Conhecer o custo real. Não dá para ser remunerado por valor sem saber quanto custa entregar aquele cuidado. Custo por procedimento, por linha de cuidado, por episódio. Muitas clínicas faturam bem e não sabem, com precisão, o que sobra depois de cada atendimento.


Medir o que antes não se media. Volume todo mundo mede, porque volume vira boleto. Desfecho, resolutividade, taxa de retorno e satisfação do paciente costumam ficar de fora. E são exatamente esses indicadores que passam a ter valor nos novos modelos.


Entender a própria população. Nos modelos que deslocam risco, como o capitation, conhecer o perfil epidemiológico e o risco assistencial da carteira deixa de ser detalhe e vira o centro da decisão.


Padronizar a operação. Modelos de valor recompensam consistência e previsibilidade. Onde cada atendimento depende de alguém resolver na hora, o risco fica alto demais para operar com preço fechado.


Entender os próprios contratos. Saber como você é pago hoje, o que já mudou e o que está prestes a mudar na relação com as fontes pagadoras não é mais opcional. 

Repare que nenhum desses pontos é sobre comprar um sistema novo. Todos são sobre maturidade de gestão. E maturidade não se compra pronta, se constrói.



O recado que fica


O fim do reinado do fee-for-service não vai acontecer com um anúncio, uma data ou uma resolução única. Ele já está acontecendo, de forma gradual e silenciosa, contrato a contrato. E, como quase toda mudança estrutural na saúde, vai separar dois grupos: quem se organizou antes e quem foi obrigado a correr depois.


Na B2E, acompanhamos esse movimento de perto e ajudamos clínicas, consultórios e instituições de saúde a lerem a própria realidade e a construírem a estrutura necessária para operar nessa nova lógica, com método, custo sob controle e decisão baseada em dados. Sem fórmula pronta, porque cada operação parte de um ponto diferente.


Se a forma como a sua operação é remunerada ainda é a mesma de dez anos atrás, talvez esse seja o momento de olhar para frente, antes que o mercado decida por você.


Elaine Costa - Sócia da B2E Saúde · Estratégia, Inovação e Gestão em Saúde 



Perguntas frequentes


O que é fee-for-service na saúde?

É o modelo de remuneração em que o prestador é pago por cada serviço realizado. Cada consulta, exame ou procedimento tem um valor próprio, e a receita é a soma dessas unidades. Foi o modelo predominante na saúde suplementar brasileira por décadas, mas vem perdendo espaço para modelos baseados em valor e desfecho.


O que é remuneração baseada em valor?

É a lógica de pagamento que vincula a remuneração ao resultado do cuidado, e não apenas à quantidade de procedimentos realizados. Em vez de recompensar volume, ela recompensa desfecho clínico, qualidade, resolutividade e uso eficiente dos recursos.


O que é capitation?

É um modelo em que se paga um valor fixo por pessoa, por período, para cuidar de uma população, independentemente de quanto ela utiliza os serviços. Ele desloca o risco para o prestador e recompensa quem previne agravos e coordena bem o cuidado.


O que é DRG na saúde?

DRG, ou grupos de diagnósticos relacionados, é um modelo em que o pagamento é definido pela categoria de diagnóstico do paciente e pelos recursos esperados para tratá-lo, e não pela quantidade de itens consumidos durante a internação.


O que são pacotes e bundles na remuneração hospitalar?

São modelos em que se define um valor fechado para um episódio completo de cuidado, reunindo em um único preço itens que antes eram cobrados separadamente, como honorários, materiais, diárias e taxas. Segundo o Observatório ANAHP 2026, 45,16% dos hospitais associados já trabalham com diárias, pacotes e bundles.


Clínicas e consultórios menores precisam se preocupar com o fim do fee-for-service?

Sim. Embora o debate esteja concentrado em grandes hospitais e operadoras, a tendência tende a chegar aos negócios menores pelos contratos com as fontes pagadoras. Clínicas que se prepararem antes negociam em melhores condições e reduzem o risco de operar com um modelo em retirada.


Como preparar uma clínica para modelos de remuneração baseados em valor?

O ponto de partida é conhecer o custo real por procedimento e por linha de cuidado, medir desfechos e não apenas volume, entender o perfil de risco da população atendida, padronizar processos para ganhar previsibilidade e compreender como os próprios contratos são remunerados. É uma questão de maturidade de gestão, não de compra de tecnologia.



Sobre a B2E Saúde


A B2E é uma consultoria brasileira especializada exclusivamente em gestão para o setor da saúde. Atua com clínicas, consultórios, hospitais, laboratórios e médicos empreendedores que precisam estruturar, profissionalizar ou expandir seus negócios com mais segurança e consistência. Seus eixos de atuação incluem gestão estratégica, assessoria financeira, eficiência operacional e gestão de processos, treinamento e desenvolvimento, plano de negócios e acreditações, qualidade e segurança assistencial.


Por escolha, a B2E atua com poucos projetos simultâneos, garantindo profundidade, presença e construção personalizada em cada trabalho.



Sobre a autora, Elaine Costa


Elaine Costa é sócia da B2E e atua em estratégia, inovação e gestão de saúde há 27 anos, com liderança na gestão hospitalar e de empresas do segmento. É formada em Administração de Empresas pela FAE Business School, especialista em Estratégia Organizacional e Gestão de Marketing pela Fundação Dom Cabral, tem MBA em Gestão Estratégica de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas e é Lean Six Sigma Black Belt pela PUCPR. Sua atuação é focada em potencializar a performance de clínicas, hospitais e negócios em saúde, aliando estratégia, inovação e eficiência operacional.

 
 
 

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